Carla Kruk: os desafios do saneamento no Uruguai
Saneamento universal até 2030
A legislação no Uruguai e os desafios para implementar medidas necessárias.

Entrevista com a pesquisadora Carla Kruk Gencarelli, palestrante do FIMA 2026
O FIMA 2026 pergunta o que fazer com um problema local, nacional e de muitos outros países. Saneamento e resíduos não são tratados da forma correta por muitos governos o que acaba afetando a saúde e a dignidade da população das periferias e áreas distantes. No Brasil, o problema se potencializa por sua extensão continental. Mas, e o que acontece em países com territórios menores, como o Uruguai?
Esta questão será respondida durante o Fórum Internacional do Meio Ambiente por uma pesquisadora que é uma referência no tema, atuando inclusive junto ao Ministério da Educação e Cultura do Uruguai. Carla Kruk Gencarelli é bioquímica, mestre em Biologia e doutora em Ciências da Vida pela Universidade de Wageningen, na Holanda. Docente no Departamento de Modelagem Estatística de Dados e Inteligência Artificial e no Instituto de Ecologia e Ciências Ambientais da Faculdade de Ciências na Universidade da República do Uruguay – UDELAR, Carla coordena a Rede Temática Ambiental (RETEMA) da Udelar. E faz parte do conselho diretor da Comunidade Uruguaia de Ecologia (CODE-UY).
Em uma entrevista para o FIMA/ARI, Carla Kruk antecipou o que apresentará em dois painéis do evento. Em 2004, o Uruguai tornou-se o primeiro país do mundo a incorporar o acesso à água potável e ao saneamento como direitos humanos fundamentais em sua Constituição. Lá, o saneamento é um serviço público essencial prestado direta e exclusivamente pelo Estado. Mas parte do trabalho ou da gestão é terceirizada o que gera questionamentos por contrariar a legislação.
Reportagem de Daniela Sallet
Qual é a situação no Uruguai em relação à questão do saneamento universal: concessão, privatização ou gestão direta pelo Setor Público?
— O acesso universal ao saneamento é um desafio internacional. É também um desafio para o Uruguai, apesar de ser um país com uma população de três milhões e meio de habitantes e um dos primeiros a reconhecer o saneamento como um direito humano fundamental. Em 2004, o Uruguai tornou-se o primeiro país do mundo a incorporar o acesso à água potável e ao saneamento como direitos humanos fundamentais em sua Constituição, por meio de uma reforma do Artigo 47 apoiada por mais de 64% da população. Este artigo estabelece que o saneamento é um serviço público essencial prestado direta e exclusivamente pelo Estado, priorizando o interesse geral em detrimento da gestão privada. A OSE (Obras Sanitarias del Estado, a empresa estatal de água e saneamento) é a empresa nacional responsável pelo saneamento em todo o país, exceto na capital, Montevidéu, onde a responsabilidade é do Governo Departamental.
Como está o atendimento à população hoje no Uruguai?
Atualmente, a cobertura de saneamento nos domicílios uruguaios é desigual (Censo de 2023, Instituto Nacional de Estatística: INE). Nas áreas urbanas, 66,8% dos domicílios conectam seu saneamento a uma rede pública e 32,1% possuem fossas sépticas, enquanto nas áreas rurais, e principalmente nas áreas costeiras, essa proporção se inverte, com apenas 2% dos domicílios conectados à rede e 94,5% utilizando fossas sépticas. Aqui, é crucial discutir o que entendemos por saneamento e que tipo de saneamento desejamos. O Plano Nacional de Saneamento (PNS) do Uruguai, criado em 2020, é um instrumento de planejamento que aborda o acesso ao saneamento para toda a população do país e define as políticas e diretrizes a serem seguidas, com o objetivo de saneamento universal até 2030. Ele afirma que “o saneamento impacta diretamente a qualidade de vida da população, seu entorno imediato e o meio ambiente, contribuindo para a inclusão social e para a dignidade e saúde dos indivíduos”. A definição de “saneamento adequado” é aquele que gerencia as águas residuais de forma segura, de modo que não entrem em contato com as pessoas em nenhum momento, protegendo a saúde dos indivíduos, seu entorno imediato e o meio ambiente, e que também deve ser acessível a todos.
«No Uruguai, o saneamento é um serviço público essencial prestado direta e exclusivamente pelo Estado»
Quais os principais desafios a partir do que está previsto na legislação?
Dentro dessa estrutura, existem vários desafios. Um deles é o de fornecer sistemas de saneamento adequados à população em cidades onde os sistemas de esgoto tradicionais são inviáveis por vários motivos, incluindo baixa densidade populacional, tipo de solo e fatores econômicos. Também é frequente que os sistemas coletivos de saneamento sejam inadequados e gerem problemas de contaminação das águas subterrâneas e poluição dos ecossistemas aquáticos em geral, incluindo praias. Fossas sépticas frequentemente liberam efluentes, às vezes de acordo com as normas, que então escoam para o meio ambiente circundante ou, durante tempestades, inundam terrenos e chegam até mesmo às áreas costeiras.
Embora o saneamento no Uruguai seja gerenciado diretamente pelo setor público, tanto a OSE (empresa estatal de água e saneamento) quanto a Prefeitura de Montevidéu terceirizam (privatizam) parte do trabalho ou da gestão para empresas privadas, frequentemente consórcios com componentes transnacionais, enquanto a própria OSE está sofrendo cortes de verbas. Esses contratos de terceirização nem sempre são bem controlados devido à falta de pessoal, além de gerarem poluição e interromperem o serviço. Nesse sentido, a população uruguaia frequentemente questiona essas privatizações por desrespeitarem a Constituição nacional. Como resultado, é muito comum em todo o país a contaminação por esgoto dos ecossistemas em geral, das águas em áreas de lazer (praias, reservatórios, rios) e das fontes utilizadas para tratamento de água, incluindo poços artesianos.
O que os participantes do FIMA 2026 vão conhecer sobre o modelo uruguaio de saneamento?
Nesta apresentação, detalharemos as mudanças históricas no Uruguai, os diferentes tipos de sistemas de saneamento existentes, os recentes processos de privatização e as mobilizações sociais a eles relacionadas. Discutiremos também as possíveis mudanças em curso para viabilizar outros tipos de saneamento, principalmente em algumas áreas costeiras. Acreditamos que a diversificação dos métodos de saneamento é necessária, assim como a coordenação com moradores, organizações, municípios e cooperativas, a fim de encontrar as soluções de saneamento mais adequadas e aceitas para cada ambiente específico. Isso se baseia na convicção de que o acesso universal só é possível se os métodos de saneamento forem diversificados e as comunidades estiverem diretamente envolvidas nesse processo.
No litoral do Rio Grande do Sul temos uma grande discussão sobre a flexibilização das normas para permitir grandes construções em praias, o que sempre gera impactos ambientais. Qual a situação no seu país e exemplos que podem ser úteis para o Brasil?
No Uruguai, as normas até recentemente estavam desatualizadas (1979) e muito brandas. Foi somente no final de 2025 que elas foram modificadas para incorporar mais indicadores de contaminação fecal e para serem mais rigorosas quanto aos níveis máximos permitidos em efluentes e ecossistemas aquáticos. Devido a esse ajuste tardio das normas e a vários dos aspectos mencionados em resposta à primeira pergunta, grande parte de nossos ecossistemas aquáticos e de transição, tanto superficiais quanto subterrâneos, apresenta contaminação fecal. Isso tem sido prejudicial às áreas turísticas e aumentou os custos de tratamento de água, tornando-se uma das principais causas de morte em crianças de 5 meses a 2 anos de idade. Particularmente nas áreas turísticas do Uruguai, estudamos o aumento de doenças transmitidas pela água associadas à contaminação fecal em praias onde os níveis de poluição são mais altos. Isso afeta não só a água do mar, mas também as águas subterrâneas e os sedimentos. Além disso, nos últimos anos, alternativas de biorremediação utilizando microrganismos nativos e eficientes, produzidos por uma cooperativa local, começaram a ser desenvolvidas. Essas alternativas estão se mostrando eficazes no controle da poluição, tanto em sistemas de saneamento antes que ela chegue aos ecossistemas quanto, em alguns casos, em sua aplicação a pequenos córregos que deságuam nas praias. Neste painel, discutiremos esses aspectos e tentaremos contribuir de alguma forma para a solução do problema no Brasil.
O que mais preocupa um cientista como você quando falamos de saneamento e resíduos em países como os nossos? Os governos estão cientes do problema e estão fazendo o necessário?
No Uruguai, que é o país que conheço melhor, embora haja preocupação com a qualidade da água e seu monitoramento, não há visibilidade dos efeitos negativos da degradação da qualidade da água, neste caso a contaminação fecal, mas também poderia ser causada por cianobactérias, produtos químicos, etc. O governo não reconhece essa conexão com a saúde, a economia, o turismo e os valores culturais de cada comunidade. No entanto, as comunidades locais estão preocupadas e buscam alternativas para proteger o meio ambiente e tudo o que ele engloba. As soluções implementadas são genéricas, não adequadas ao contexto local e não consideram as mudanças a longo prazo e seus efeitos. Nossos filhos nascerão e viverão em ambientes cada vez mais poluídos, os turistas deixarão de visitar lugares onde adoecem e não poderemos mais desfrutar das belas paisagens naturais que existem em nossos países.
(Livre a reprodução, citada a fonte)
